DÉCOR

Marcelo Felmanas: entre arte, objetos e casas com história

À frente da 6F há três décadas, Marcelo Felmanas fala sobre memória, repertório, curadoria e a forma como aprendeu a reconhecer beleza para além do óbvio. Há trajetórias que começam antes mesmo de ganharem…

À frente da 6F há três décadas, Marcelo Felmanas fala sobre memória, repertório, curadoria e a forma como aprendeu a reconhecer beleza para além do óbvio.

Há trajetórias que começam antes mesmo de ganharem um nome. No caso de Marcelo Felmanas, o olhar foi sendo formado ainda cedo, entre leilões, visitas a galerias e a convivência com uma família profundamente ligada à arte.

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Ao longo do tempo, esse repertório intuitivo ganhou estrutura. Vieram a formação em Administração, os cursos na Sotheby’s, o trabalho com móveis e antiguidades e, mais tarde, a construção da 6F, empresa que se consolidou como referência em curadoria de objetos, mesa, decoração e marcas que atravessam o tempo.

Trinta anos depois, Marcelo segue olhando para a casa não como vitrine, mas como narrativa. A criação da Casa 6F reforçou essa visão ao mostrar que objetos ganham outra força quando aparecem inseridos em um ambiente vivido, cercados de contexto, mistura e personalidade.

Nesta edição de Perfil, ele fala sobre memória, emoção, repertório e sobre o que realmente faz uma peça permanecer interessante.

1. Você cresceu em uma família de galeristas, cercado por arte. Qual é a sua primeira memória ligada a esse universo?

Minhas lembranças mais antigas estão ligadas aos leilões de arte. Lembro especialmente do primeiro que acompanhei ainda jovem. Fiquei muito impressionado com o ambiente, com as obras e com toda aquela movimentação, que para mim parecia quase uma cena de filme. Antes mesmo da criação da ProArte, eu já acompanhava meu pai em visitas a galerias e negociações de obras. Na época, não tinha dimensão do que aquilo representava, mas gostava de observar. Aos poucos, essa convivência foi despertando minha curiosidade e formando o meu olhar para a arte.

2. O que você aprendeu em casa, quase sem perceber, e que ainda hoje influencia a maneira como escolhe uma peça, monta um ambiente ou percebe beleza?

Aprendi que uma peça precisa provocar alguma coisa. Não basta ser bonita ou ter uma assinatura importante. A escolha tem muito a ver com aquilo que toca e emociona. Acho que esse olhar veio da arte e acabou sendo levado para o design. Até hoje, quando escolho alguma coisa para a 6F ou para minha casa, existe esse componente muito pessoal. Gosto de peças que tenham presença, história e que continuem interessantes com o passar do tempo.

3. Você se formou em Administração, mas construiu uma trajetória profundamente ligada à estética. Em algum momento esses dois mundos pareceram opostos ou sempre caminharam juntos?

Para mim, sempre caminharam juntos. A Administração me deu uma base importante para entender o negócio, enquanto a estética sempre esteve presente na minha vida. A 6F nasceu justamente dessa combinação. Existe a curadoria, a pesquisa, a busca pelo novo, mas existe também uma empresa que precisa tomar decisões, entender o mercado e construir relações de longo prazo. Depois de 30 anos, vejo que uma coisa nunca existiu sem a outra.

4. Sua passagem pela Sotheby’s, em Nova York e Paris, ampliou seu repertório. O que essa experiência mudou no seu olhar?

Os cursos na Sotheby’s foram muito importantes para ampliar meu conhecimento sobre história, estilos, materiais e diferentes períodos. Mas acredito que esse aprendizado ganhou ainda mais força no período em que trabalhei com móveis e antiguidades. A prática me obrigava a estudar constantemente, pesquisar a origem das peças, entender técnicas, materiais e o contexto em que haviam sido produzidas. Foi uma combinação entre estudo e experiência que ampliou muito meu repertório e meu horizonte de conhecimento. É um olhar que construí naquela época e que trago comigo até hoje.

5. A 6F completa 30 anos. O que o Marcelo de hoje escolheria de forma diferente daquele que começou a empresa?

Talvez hoje eu escolha menos e melhor. Quando você começa, quer descobrir tudo, conhecer tudo, trazer tudo. Com o tempo, aprende a editar o próprio olhar. Hoje sei com mais rapidez o que faz sentido para a 6F e o que não faz. Também passei a valorizar ainda mais aquilo que consegue atravessar o tempo. O novo continua me interessando muito, mas não simplesmente porque é novo.

6. Depois de tantos anos cercado por objetos, arte, design e marcas históricas, o que ainda faz uma peça realmente chamar sua atenção?

Ainda é a emoção. Posso reconhecer a técnica, a qualidade do material, a importância de um designer ou a história de uma manufatura, mas, no final, a peça precisa me despertar alguma coisa. Também gosto quando existe um elemento inesperado: uma proporção diferente, uma combinação de materiais, uma cor ou até certo humor. São peças que você olha uma vez e depois sente vontade de olhar novamente.

7. A Casa 6F começou dentro de uma antiga residência sua e acabou se tornando um projeto de decoração, encontros e negócios. Em que momento você percebeu que ela poderia ser algo maior?

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A Casa 6F mostrou muito rapidamente que existia uma maneira diferente de apresentar as marcas. Quando você tira os objetos do contexto tradicional de uma feira ou showroom e os coloca dentro de uma casa, eles passam a ser vistos de outra forma. As pessoas conseguem imaginar aquela peça sendo usada, misturada com outras referências, fazendo parte de uma vida. Ao mesmo tempo, percebemos que o ambiente mais intimista favorecia os encontros, as conversas e os negócios. Foi aí que entendemos que a Casa 6F poderia ir além de uma apresentação de produtos e se tornar um projeto de relacionamento e curadoria.

8. O que torna uma casa interessante para você hoje: arquitetura, objetos, memória, mistura, quem vive ali?

Acho que é a combinação de tudo isso, mas principalmente a personalidade de quem vive ali. Não gosto de casas que parecem montadas de uma única vez. Gosto de mistura, de peças de épocas diferentes, de objetos trazidos de viagens, de arte, de coisas herdadas e de outras recém-descobertas. Uma casa interessante vai sendo construída ao longo do tempo. Ela precisa contar alguma coisa sobre quem mora nela.

9. Você viajou muito e construiu repertório em diferentes lugares. O que ainda consegue surpreender seu olhar quando chega a uma nova cidade?

O modo como as pessoas vivem. Viajo muito procurando peças e referências, mas o que mais me interessa é observar os hábitos, os mercados, os restaurantes, a arquitetura, o artesanato, a maneira como uma cidade usa as cores e os materiais. Mesmo depois de tantos lugares, sempre existe alguma coisa para descobrir. Muitas vezes, o que mais surpreende não está em uma loja ou em um museu, mas na rua, em um objeto cotidiano ou em uma tradição local.

10. Depois de três décadas trabalhando com beleza, objetos e casas, o que você considera luxo hoje?

Luxo, para mim, está cada vez menos ligado ao excesso. É poder escolher bem, ter tempo, viajar, receber as pessoas de quem você gosta e conviver com coisas que tenham significado. Dentro de casa, isso também aparece na possibilidade de reunir objetos que contam histórias e que foram escolhidos ao longo da vida. Acho que o verdadeiro luxo está muito mais na experiência e na relação que você estabelece com as coisas do que simplesmente no valor delas.

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