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A engenharia invisível do luxo brasileiro, por Luis Paravato

Enquanto o mercado global avança em ritmo moderado, o Brasil cresce a dois dígitos. A explicação está numa camada de tecnologia que poucos consumidores enxergam. O mercado global de bens pessoais de luxo mantém,…

Enquanto o mercado global avança em ritmo moderado, o Brasil cresce a dois dígitos. A explicação está numa camada de tecnologia que poucos consumidores enxergam.

O mercado global de bens pessoais de luxo mantém, em 2026, uma perspectiva de crescimento moderado, com avanço entre 3% e 5%, sustentado principalmente por um público de alta renda que segue consumindo, enquanto o público aspiracional reduz sua participação nas compras de alto padrão. No Brasil, o movimento acontece em outra velocidade: o setor ultrapassou a barreira simbólica dos R$ 100 bilhões em 2025 e deve alcançar entre R$ 120 bilhões e R$ 130 bilhões em 2026, conforme projeções da Bain & Company e da Euromonitor International.

Entre 2022 e 2024, o luxo brasileiro cresceu em média 12% ao ano, quatro vezes acima da média global de 3%. Para os próximos anos, a Bain estima avanço anual entre 6% e 8% até 2030, impulsionado por uma combinação de renda concentrada, expansão regional do consumo premium e maior sofisticação das marcas. Grande parte desse salto vem da tecnologia, que passou a organizar atendimento, dados, exclusividade e privacidade, consolidando-se como um dos principais fatores de diferenciação das marcas de alto padrão.

Por que o Brasil cresce enquanto o mundo desacelera

A força do luxo brasileiro combina liquidez do agronegócio, maturidade do sistema financeiro e uma elite altamente capitalizada, com poder de compra preservado mesmo em um cenário global mais seletivo. A Euromonitor coloca o Brasil na nona posição entre os dez mercados de luxo que mais crescem no planeta, à frente de Hong Kong, e o país já responde por 25% de todo o luxo da América Latina. Esse avanço aparece com especial intensidade nas categorias ligadas à experiência: em 2025, o segmento automotivo premium cresceu 18% e a hospitalidade de alto padrão avançou 16%, segundo a Bain, reforçando uma mudança no comportamento de consumo. O luxo brasileiro passa a ser movido tanto pelo acesso a produtos exclusivos quanto pela busca por vivências, conveniência, serviço e pertencimento.

A base desse mercado também ajuda a explicar a velocidade do crescimento. A Serasa Experian identifica 7,5 milhões de brasileiros na tipologia Premium, dentro de uma população de 215 milhões. A Bain, em um recorte mais restrito, contabiliza 1,3 milhão de indivíduos de altíssimo poder aquisitivo, número que pode chegar a 1,5 milhão até 2030. Metade do gasto suntuário nacional vem da chamada Geração Prateada, grupo em fase madura do ciclo empresarial, com patrimônio consolidado e alta recorrência de consumo. A transformação cultural, porém, avança pelas gerações mais jovens, que direcionam orçamento para longevidade, bem-estar, experiências, moda circular e colecionismo digital, exigindo das marcas uma linguagem mais precisa, contemporânea e conectada ao novo repertório do luxo.

Mercado brasileiro em transformação

Durante o primeiro semestre de 2026, a tecnologia no luxo brasileiro amadureceu em torno de uma premissa simples, a inteligência artificial cuida da carga operacional para devolver tempo, repertório e presença ao atendimento profissional. O consultor passa a cultivar mais vínculo. Essa mudança aparece no CRM, sigla para Customer Relationship Management, o sistema que centraliza o histórico e o relacionamento com cada cliente. Com a inteligência artificial generativa e algoritmos preditivos, as marcas passam a construir uma visão mais completa do consumidor, reunindo histórico de compras, preferências estéticas, momentos de vida e sinais de intenção. O resultado é uma relação mais precisa e maior capacidade de elevar o LTV, Lifetime Value, a receita total gerada por um cliente ao longo de sua relação com a marca.

No varejo de luxo, essa prática tem nome, clienteling. Trata-se da gestão personalizada do relacionamento, capaz de antecipar desejos e transformar dados em cuidado. A Vivara oferece um dos casos mais ilustrativos. Diante de plataformas fragmentadas, a maior rede de joalherias da América Latina substituiu sua infraestrutura antiga por um orquestrador inteligente unificado, calibrado para interpretar a intenção do cliente. A taxa de resolução no primeiro contato saltou de patamares abaixo de 70% para mais de 80%, com ganho de 80% na produtividade da operação de atendimento. A automação absorveu o volume transacional e devolveu à equipe acolhimento, escuta e negociação de peças de alto valor.

Na moda, a inteligência artificial preditiva sustenta o avanço do modelo D2C, Direct-to-Consumer, em que a marca vende diretamente ao cliente final, reduzindo intermediários. Ao capturar dados primários, ou first-party data, informações coletadas diretamente na relação com o consumidor, as empresas ganham autonomia para recomendar produtos com mais precisão e construir jornadas mais relevantes. A Azzas 2154, conglomerado nascido da união entre Arezzo&Co e Grupo Soma, estruturou grande parte da integração de suas operações na capacidade de cruzar bases massivas de clientes. Plataformas como a Farfetch também avançaram com personal shoppers digitais que consideram tonalidades preferidas, estilo e características físicas, alcançando incrementos de até 33% na conversão.

O luxo que se prova pelo celular e se autentica em segundos

A união entre loja física e tecnologia criou um varejo de luxo mais sensorial, mais eficiente e capaz de exibir muito mais produtos em menos espaço. A realidade aumentada, tecnologia que sobrepõe elementos digitais ao ambiente pela câmera do celular, ajuda a resolver o alto custo do metro quadrado nos shoppings. A Elegancy Design exemplifica esse movimento com um quiosque de apenas 12 m² no Shopping Lar Center, em São Paulo, onde o cliente acessa mais de 500 itens, com alta fidelidade de texturas, a partir de um QR Code.

Cerca de 40% das falsificações de produtos de luxo acontecem em canais digitais, corroendo valor, confiança e exclusividade. A resposta chega com o DPP, Passaporte Digital de Produto, um registro que comprova a origem, autenticidade e ciclo de vida da peça. O Aura Blockchain Consortium, fundado por LVMH, Prada Group, Richemont, Cartier e Mercedes-Benz, tornou-se uma das principais referências, com etiquetas NFC invisíveis, a tecnologia de aproximação usada em pagamentos por celular, aplicadas aos produtos.

O cliente aproxima o celular da peça e acessa informações de procedência, propriedade e cuidados. A ZEGNA usa a solução em tecidos selecionados, comprovando autenticidade e origem da matéria-prima. A Miu Miu adotou uma estratégia semelhante na coleção Upcycled, com transparência sobre a reutilização de materiais.

Brechós brasileiros de alto nível já combinam inteligência artificial e blockchain para validar relógios e artigos de couro em minutos, criando mais liquidez e segurança para o second-hand luxury.

Experiência, tempo e desejo

O acúmulo de objetos ociosos perde força entre herdeiros e consumidores da Geração Z, enquanto parte crescente do orçamento migra para experiências memoráveis. Hoje, entre 35% e 40% do gasto do consumidor de luxo já se concentra em hospitalidade de excelência, viagens e bem-estar, com projeção de superar 45% a partir de 2027. A resposta das marcas aparece na chamada World-building Hospitality, a hospitalidade de construção de mundo, em que lojas-conceito, hotéis, residências e espaços proprietários assumem a função de ambientes imersivos, reunindo arte, gastronomia, serviço e estética para fazer o cliente habitar a identidade da marca.

A tendência para 2027 concentra a inteligência artificial nos bastidores da operação, filtrando grandes volumes de dados para entregar ao consultor a resposta certa no momento certo. Com a tecnologia cuidando da leitura operacional, o atendimento ganha espaço para exercer curadoria, antecipar desejos e reduzir o excesso de escolha. A personalização algorítmica torna-se requisito básico; o diferencial competitivo migra para afeto, precisão e capacidade de transformar conveniência em experiência emocional.

Luís Paravato é CEO da Kronos Experience, consultoria estratégica em marketing, mídia, dados e arquitetura de receita. Atua há mais de 18 anos na interseção entre marca, mídia e tecnologia.

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