O São Paulo Fashion Week encerrou sua edição N61 em 18 de outubro, após seis dias de desfiles que celebraram os 30 anos do evento. Sob o tema Imaginários, a temporada apresentou um panorama diverso da criação nacional, com coleções que transitaram entre memória, artesanato, alfaiataria, cultura pop e experimentação.
Mais do que apontar tendências, acompanhar o SPFW é observar as diferentes linguagens que constroem a moda brasileira. Nesta edição, a relação entre tradição e contemporaneidade apareceu de maneiras distintas: na valorização das técnicas manuais, na reinvenção de códigos clássicos e na aproximação entre vestuário, arte e comportamento.
A BlackCard selecionou dez marcas que ajudam a contar essa história.
Herchcovitch;Alexandre: romantismo e provocação
Responsável pela abertura da temporada, Alexandre Herchcovitch revisitou elementos reconhecíveis de sua trajetória, aproximando referências fetichistas de uma estética romântica.
Rendas, transparências, couro, borracha e volumes delicados apareceram em composições que exploraram o contraste entre inocência e sensualidade. A coleção também recuperou referências da cultura clubber, universo presente na identidade criativa do estilista.
O resultado reafirmou a capacidade de Herchcovitch de reinterpretar seus próprios códigos, preservando a força visual que caracteriza seu trabalho.

Catarina Mina: o artesanato como identidade
A marca cearense Catarina Mina levou à passarela uma interpretação poética da relação entre o sertão e a chuva.
A coleção explorou bordados, canutilhos e diferentes técnicas manuais para representar a transformação da paisagem da caatinga com a chegada da água.
O trabalho evidencia como o artesanato pode ocupar o centro do processo criativo, indo além do acabamento decorativo. Na proposta da marca, matéria-prima, técnica e território participam da construção da identidade das peças.
João Pimenta: novas possibilidades para a alfaiataria
João Pimenta voltou seu olhar para os códigos do vestuário formal, especialmente o smoking e os trajes associados ao universo do jazz.
Na passarela, paletós, coletes e elementos tradicionais da alfaiataria ganharam novas proporções e funções. Algumas peças foram transformadas em bodies e macacões, enquanto estruturas habitualmente escondidas na confecção passaram a integrar a linguagem visual.
A coleção propôs uma reflexão sobre as convenções do vestir, demonstrando que a elegância também pode existir fora das regras tradicionais da roupa formal.

Handred: referências japonesas e novas proporções
Sob direção criativa de André Namitala, a Handred apresentou uma coleção inspirada em referências culturais e visuais do Japão.
Silhuetas amplas, calças volumosas, transparências e sobreposições construíram um guarda-roupa que alternou estrutura e fluidez.
O desfile explorou o encontro entre movimento e contemplação, aproximando a roupa de uma experiência sensorial. A escolha dos materiais e das proporções mostrou como referências culturais podem ser traduzidas em uma linguagem própria, sem depender de interpretações literais.

Santa Resistência: literatura, cor e cultura brasileira
A estilista Mônica Sampaio encontrou na história de Otelo e em sua releitura pelo universo do samba uma fonte de inspiração para a Santa Resistência.
A coleção combinou diferentes tons de verde e rosa, estampas florais, bordados e peças que transitaram entre propostas sofisticadas e casuais.
O desfile reuniu referências literárias e culturais em uma narrativa marcada pela cor e pela expressividade, reafirmando a identidade brasileira como parte central do trabalho da marca.

Aluf: formas orgânicas e imaginação
A Aluf, de Ana Luisa Fernandes, apresentou Sorte de Pescador, coleção inspirada em elementos do universo aquático.
Peixes, barcos e superfícies ligadas à água foram reinterpretados em volumes esculturais, babados e bordados tridimensionais.
As peças exploraram o potencial expressivo dos materiais e a relação entre corpo e forma, mostrando uma moda que se aproxima da criação artística sem abandonar o vestuário.

UÓ Upcycling: novas histórias para materiais existentes
Marcelo Sommer e Luiz Monteiro apresentaram uma coleção construída a partir do reaproveitamento de roupas e tecidos.
A proposta aproximou lingerie, alfaiataria e referências do automobilismo, combinando camisolas, peças vintage, blazers e elementos esportivos.
Ao transformar materiais existentes em novas composições, a UÓ mostrou como a criação pode partir da memória dos objetos e das possibilidades de reconstrução.
O resultado ampliou o debate sobre o valor da roupa para além de sua primeira utilização.

Dario Mittmann: a cultura pop em outra linguagem
Dario Mittmann levou à passarela uma interpretação inesperada da Turma da Mônica, em colaboração com a Mauricio de Sousa Produções e a Panini.
A coleção Bagunça transformou personagens conhecidos em referências punk, clubber e ultrapop, com estampas, acessórios, couro e elementos da estética urbana.
O desfile demonstrou como símbolos da cultura popular podem ganhar novas leituras no vestuário, aproximando memória afetiva, entretenimento e moda.

Hisha: ornamentação e referências mineiras
Em sua estreia no SPFW, a Hisha, marca de Giovanna Resende, apresentou Alforje, coleção inspirada na Estrada Real de Minas Gerais.
Transparências, corsets, rendas, cristais e pedrarias construíram peças de forte presença visual.
As referências à montaria e à geologia contribuíram para uma narrativa que aproximou ornamentação e território, explorando a riqueza de detalhes como elemento de identidade.

Normando: arte paraense e novas cores na alfaiataria
A marca Normando, criada por Marco Normando e Emídio Contente, encontrou inspiração na obra do pintor paraense Ismael Nery.
A coleção incorporou azuis, marrons e vermelhos a uma linguagem de alfaiataria e camisaria marcada por experimentações gráficas.
Transparências, pinturas manuais e efeitos de ilusão de ótica apareceram em peças que transitaram entre referências masculinas e femininas.
A proposta reafirmou a arte brasileira como uma fonte importante de pesquisa e renovação estética.

Uma moda brasileira de muitas identidades
As dez coleções selecionadas mostram que não existe uma única maneira de definir a moda brasileira contemporânea.
O artesanato convive com a alfaiataria experimental. A memória cultural encontra a linguagem urbana. A ornamentação divide espaço com o reaproveitamento e com novas interpretações da silhueta.
Essa diversidade foi um dos aspectos mais relevantes da edição comemorativa do SPFW.
Ao completar 30 anos, o evento segue como uma plataforma para apresentar não apenas roupas, mas diferentes formas de pensar a criação, o território e o futuro da indústria da moda no Brasil.
Crédito das imagens: Divulgação.







