MODA

MISCI entra na seleção global da Vogue com o Brasil no centro de sua linguagem

A MISCI, de Airon Martin, foi escolhida para representar o Brasil na Vogue's Global Class of Emerging Designers 2026, iniciativa que reúne novos nomes da moda indicados pelas diferentes edições internacionais da Vogue. A…

A MISCI, de Airon Martin, foi escolhida para representar o Brasil na Vogue’s Global Class of Emerging Designers 2026, iniciativa que reúne novos nomes da moda indicados pelas diferentes edições internacionais da Vogue.

A seleção, publicada pela Vogue Runway, percorre diferentes mercados em busca de designers que estejam construindo linguagens próprias dentro da moda contemporânea.

Publicidade

No caso brasileiro, a escolha chama atenção por um motivo que vai além do reconhecimento internacional da marca.

A MISCI construiu sua identidade olhando deliberadamente para o Brasil.

A própria Vogue destaca essa característica ao apresentar o trabalho de Airon Martin, mencionando a releitura da alfaiataria, os jacquards desenvolvidos especialmente pela marca e o uso do couro de pirarucu entre os elementos que passaram a identificar seu design.

Brasil como linguagem, não como tema

Fundada em São Paulo em 2018, a MISCI vem construindo um universo que aproxima moda, design, cultura e pesquisa de materiais.

Airon Martin, nascido em Mato Grosso, transformou referências brasileiras em parte estrutural de sua criação.

Elas aparecem nos materiais, nas proporções, no artesanato, nas colaborações e também na maneira como a marca pensa suas apresentações.

Em coleções recentes, esse repertório atravessou referências ao Cinema Novo, ao Carnaval, ao interior brasileiro e à arquitetura, sem recorrer à ideia mais óbvia de brasilidade.

Essa diferença importa.

Durante muito tempo, marcas de mercados fora dos grandes centros da moda precisaram parecer internacionais para conquistar reconhecimento internacional.

Hoje, parte do movimento parece acontecer no sentido contrário.

Quanto mais global se torna o mercado, maior também é a procura por criadores capazes de apresentar uma perspectiva que não poderia ter sido produzida em qualquer lugar.

Identidade como ativo internacional

A presença da MISCI na seleção da Vogue chega em um momento de expansão da marca.

Nos últimos anos, Airon Martin ampliou a presença comercial, abriu endereço no Rio de Janeiro e passou a apresentar seu trabalho para uma audiência internacional cada vez maior.

Mas talvez a parte mais relevante desse processo seja perceber que a internacionalização não exigiu o abandono dos códigos que deram origem à marca.

Foi justamente o contrário.

Publicidade

A Vogue descreve a filosofia da MISCI como um design que olha para o Brasil em vez de buscar referências externas como ponto de partida.

Essa frase diz bastante sobre o momento atual da moda brasileira.

O país não precisa aparecer apenas como fornecedor de matéria-prima, inspiração tropical ou cenário.

Pode produzir linguagem, propriedade intelectual e marcas capazes de participar da conversa internacional com identidade própria.

Para a MISCI, entrar na Global Class of Emerging Designers representa um reconhecimento importante.

Para a moda brasileira, há uma leitura ainda mais interessante.

Talvez o caminho para ser entendido globalmente passe cada vez menos por parecer com o mundo e cada vez mais por mostrar ao mundo algo que só poderia ter nascido aqui.

Publicidade

Compartilhar