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Elsa Schiaparelli: a mulher que colocou o surrealismo no guarda-roupa

Antes de a moda aprender a se apresentar como arte, Elsa Schiaparelli já colocava lagostas em vestidos, esqueletos em seda preta e sapatos sobre a cabeça. Na Paris dos anos 1930, quando a alta-costura…

Antes de a moda aprender a se apresentar como arte, Elsa Schiaparelli já colocava lagostas em vestidos, esqueletos em seda preta e sapatos sobre a cabeça.

Na Paris dos anos 1930, quando a alta-costura ainda era frequentemente associada à elegância disciplinada, Schiaparelli escolheu outro caminho. Preferiu o choque, o humor, o inesperado. Para ela, vestir não era apenas desenhar uma silhueta bonita. Era criar imagem, conversa, desejo e memória.

Elsa Schiaparelli: a mulher que colocou o surrealismo no guarda-roupa
Vestidos de noite Schiaparelli, fotografia de Cecil Beaton, encomendada pela Vogue francesa, 1936, França.

Italiana, inquieta e cercada por artistas, Elsa entendeu cedo que a moda poderia ser mais do que roupa. Poderia ser manifesto visual. Seu nome ficou ligado ao surrealismo não por acaso, mas por afinidade de espírito. Enquanto muitos criadores buscavam a perfeição clássica, ela se interessava pelo absurdo, pelo sonho, pelo objeto deslocado de lugar.

Um dos símbolos mais famosos dessa visão é o Lobster Dress, criado em 1937 com Salvador Dalí. O vestido de organza de seda clara trazia uma grande lagosta vermelha estampada na saia, em um gesto que parecia elegante e provocador ao mesmo tempo. A peça se tornou um dos encontros mais emblemáticos entre arte e moda no século XX.

Mas Schiaparelli não parou na lagosta. Com Dalí, também criou o célebre Shoe Hat, de 1937-38, um chapéu em formato de sapato de salto alto que levou a lógica surrealista diretamente para o corpo. O Metropolitan Museum of Art descreve essa colaboração como um dos momentos de maior “absurdidade surrealista” entre a designer e o artista.

Em 1938, veio outro ícone: o Skeleton Dress, vestido preto com volumes que desenhavam ossos sobre o corpo, criado para a coleção Le Cirque. A peça transformava a estrutura invisível do corpo em ornamento. Era moda, mas também comentário. Era elegância, mas com inquietação.

O que torna Schiaparelli tão atual é justamente essa recusa ao previsível. Ela compreendeu que uma maison não vive apenas de vestidos, mas de códigos. O rosa shocking, os olhos, as mãos, os lábios, os elementos anatômicos, os bordados inesperados e os acessórios quase teatrais formaram um vocabulário visual próprio, reconhecível décadas depois.

Hoje, esse legado voltou ao centro da conversa. A exposição “Schiaparelli: Fashion Becomes Art”, no V&A South Kensington, em Londres, é a primeira mostra do Reino Unido dedicada a Elsa Schiaparelli e percorre dos anos 1920 ao presente, conectando as origens da maison ao trabalho atual de Daniel Roseberry. A exposição fica em cartaz até 8 de novembro de 2026.

Roseberry, nomeado diretor criativo da Schiaparelli em 2019, reativou os códigos da casa com uma gramática contemporânea: joias douradas, partes anatômicas, metal, couro moldado, volumes esculturais e uma ideia de couture feita para circular tanto no tapete vermelho quanto no imaginário digital.

O interessante é que a Schiaparelli de hoje não parece uma reprodução nostálgica da fundadora. Parece uma continuação de sua pergunta original: até onde a moda pode ir sem deixar de ser moda?

Talvez seja esse o ponto que faz Elsa permanecer tão relevante. Ela não tratou o luxo como silêncio obrigatório. Mostrou que ele também podia ser inteligente, irônico, estranho e memorável.

Em um mercado que fala tanto sobre desejo, Schiaparelli lembra que o desejo nem sempre nasce da perfeição. Às vezes, nasce do espanto.

Elsa Schiaparelli: a mulher que colocou o surrealismo no guarda-roupa
Foto © Giovanni Giannoni. Foto cortesia de Patrimoine Schiaparelli, Paris

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