Tudo começa com um ovo sobre a mesa. Em “O Ovo e a Galinha”, um dos contos mais enigmáticos de Clarice Lispector, essa imagem banal abre um fluxo de pensamentos sobre existência, Deus, amor, trabalho e tudo aquilo que escapa à explicação. Agora, o conto ganha o palco do Teatro Oficina, em São Paulo, com Ana Hartmann no papel da própria Clarice e direção de Joana Medeiros. São 16 apresentações, às segundas e terças-feiras, de 19 de outubro a 8 de dezembro.
Clarice diante do próprio texto
No espetáculo, Ana Hartmann interpreta Clarice no momento em que ela lê o conto. Aos poucos, a leitura se transforma: a escritora passa a viver no corpo as ideias, as imagens e os estados que o texto provoca. O que poderia ser uma simples leitura dramática vira uma travessia, em que pensamento e ação ocupam o mesmo espaço.
O ponto de partida é um episódio curioso da vida de Clarice. Em 1975, ela participou do 1º Simpósio de Bruxaria de Bogotá, na Colômbia, e levou justamente “O Ovo e a Galinha” para ler. Há versões diferentes sobre o que aconteceu ali, e a montagem usa essa zona de incerteza para imaginar a escritora diante do público.
Uma montagem construída sem pressa
A ideia nasceu em 2017, a partir de uma proposta de Joana Medeiros, e passou por anos de pesquisa, leituras e ensaios abertos, parte deles no próprio Oficina, antes de uma temporada no Rio de Janeiro. A estreia paulistana tem um sabor de reencontro: foi no Oficina que Ana Hartmann começou a carreira, em 2012, em montagens como “As Bacantes” e “Cacilda!!!”, sob direção de Zé Celso Martinez Corrêa.
Desde então, a atriz recebeu o Prêmio Quem Revelação por “Killer Joe”, protagonizou a série “Reality Z”, da Netflix, coproduzida por Charlie Brooker, e esteve em longas como “Barba Ensopada de Sangue”, de Aly Muritiba, e “O Pastor e o Guerrilheiro”, de José Eduardo Belmonte.
O ovo como imagem, luz e mar
Ana é a única atriz em cena, mas nunca está sozinha. Luz, som, projeções, figurinos e objetos atravessam o percurso da personagem, e uma equipe técnica participa da ação. A concepção audiovisual é de Ciça Lucchesi, artista ligada ao Oficina, que pesquisou o ovo em sua geometria e em diferentes mitologias e culturas. O mar, imagens de Clarice e referências religiosas compõem esse universo visual.
O público é recebido por imagens e sons de praia antes mesmo do início. “É para eles já irem entrando num outro estado, mais meditativo”, conta Ciça. Há ainda uma câmera ao vivo, operada pelo kino-atuador Luz Barbosa, que transmite para o telão imagens captadas durante a peça, numa camada de cinema em tempo real.
A arquitetura do Oficina como parte da cena
Vidro, espelho, fumaça e objetos do dia a dia completam a cena: uma mala associada a Clarice, uma folha em branco, grandes utensílios de limpeza. Gestos corriqueiros ganham outra dimensão, num jogo constante entre o preto e o branco do ovo, a luz e a sombra.
Para Joana Medeiros, o espaço é parte da dramaturgia. A arquitetura do Oficina, com seus planos e pontos de vista diferentes, cria uma relação particular entre palco e plateia, e a montagem incorpora isso ao percurso da personagem. Poucos lugares em São Paulo combinariam tanto com um texto de Clarice.
Serviço
“O Ovo e a Galinha”. De 19 de outubro a 8 de dezembro de 2026, às segundas e terças, às 20h. Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona: Rua Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo. Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada), à venda pela Sympla. Duração: 60 minutos. Classificação: 14 anos.
Ficha técnica: dramaturgia de Clarice Lispector, Joana Medeiros e Ana Hartmann; direção de Joana Medeiros; atuação de Ana Hartmann; projeções de Ciça Lucchesi; som e música em cena de Adriano Salhab; iluminação de Victoria Pedrosa; direção de arte de Marília Pirajú e Marcelo X; figurino de Felipe Samorano; kino-atuador Luz Barbosa; produção da Rodri Produções.







